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Artigo na Revista Rádio e Negócios sobre Rádio Digital

O artigo entitulado "Rádio Digital: uma solução que pode chegar tarde demais" foi escrito por Marcelo Goedert, Rafael Diniz e Bráulio Ribeiro e saiu na edição 17 da revista, páginas 19 e 20. O texto do artigo segue abaixo.

Rádio Digital: uma solução que pode chegar tarde demais

A implantação do Rádio Digital, que foi apontada em 2006 como a “salvação do rádio brasileiro”, está há tanto tempo paralisada pela indecisão governamental que corre o risco de não chegar a tempo de salvar o agonizante mercado radiofônico. A discussão sobre a implantação do rádio digital no Brasil começou há mais de 10 anos. Nesse período o avanço tecnológico alterou significativamente o cenário da radiodifusão e da mídia em geral.

A história do rádio digital no Brasil remonta ao início da década de 2000, quando testes foram realizados tanto pela academia quanto por radiodifusores, com o objetivo de definir o melhor sistema para o país. Em 2010 a portaria 290 do Ministério das Comunicações (MC) definiu as diretrizes do Sistema Brasileiro de Rádio Digital, mas diferentemente d-o que aconteceu com a TV Digital, não estabeleceu um prazo para a definição do sistema. Em agosto de 2012 o MC criou o Conselho Consultivo do Rádio Digital (CCRD), com o objetivo de analisar e sugerir o melhor padrão para adoção pelo país até o fim daquele ano. Após intensa atividade no início do CCRD, a ausência de objetivos claros, falta de decisões significativas e nem previsão de término, determinou o esvaziamento e fim melancólico do conselho, sem qualquer definição. A única definição técnica foi da Anatel, em 2013, que apresentou relatório determinando que: para funcionar em simulcast*, o sistema digital adotado só poderia operar em uma das bandas laterais do sinal analógico. Somente o padrão DRM atende essa premissa, portanto, o sistema a ser adotado no Brasil estava definido naquele momento. Mas o ministério resolveu continuar os debates, e o CCRD definhou.

Não existem desculpas para as ondas curtas e tropicais
Em muitos países o rádio digital cresce exponencialmente em AM, abaixo do 30 MHz, em DRM30. A possibilidade de entregar boa qualidade sonora e conteúdo multimídia para longas distâncias vem se mostrando útil em diversos países com grandes extensões territoriais e em transmissões internacionais, muito importantes em um mundo globalizado. O padrão DRM é o único reconhecido pela UIT para OC/OT e sua adoção é mundial. Hoje acontecem transmissões constantes em OC e OM em digital (DRM) em emissoras da Alemanha (Deutsche Welle), Itália (Radio Maria e Vatican Radio), Inglaterra (BBC), Índia (AIR), Nova Zelândia (RNZI), Japão (NHK), Indonésia (RRI), França (RFI), entre muitas outras. Vários testes já foram realizados no Brasil, permitindo recepção de áudio excelente em OC proveniente de emissoras da Guiana Francesa e Ilha de Ascensão (Reino Unido). Todas as transmissões podem ser conferidas no site oficial do DRM (www.drm.org). A Índia se destaca por estar implantando o rádio digital, em DRM 30, cobrindo 95% do seu território. Os conflitos na África provocaram o investimento em transmissões digitais em ondas curtas de emissoras públicas europeias voltadas para aquele continente, onde organizações comunitárias atuam na distribuição de receptores digitais DRM para os refugiados. É a concretização da essência desta nova mídia: a grande área de cobertura, muito conteúdo, com qualidade e robustez.

A delonga da implantação do rádio digital no Brasil é justificado pelo governo devido a incapacidade de se decidir qual padrão deve ser aqui adotado. Todavia, pelo fato do DRM ser o único padrão existente que realiza transmissões em ondas curtas e ondas tropicais, não há motivo para o ministério das comunicações não homologar imediatamente este sistema em nosso país, nestas faixas de frequência. Essa decisão provocaria uma imediata renovação para os radiodifusores deste setor, abrindo a possibilidade de uma revitalização do rádio de longo alcance, e permitindo a chegada de conteúdo de qualidade no interior do país. É importante termos o pensamento de que a implantação do rádio digital em OC/OT é a introdução de uma plataforma “livre para todos” utilizando-se um sistema já existente. Não é a revitalização das ondas curtas, é o nascimento de uma nova forma de transmissão de som e de dados multimídia, é algo novo que nasce.

Enquanto a não implantação do rádio digital no Brasil aparenta ser uma estratégia segura e de baixo custo, já chegamos em um ponto em que o setor já perde dinheiro com a situação. Não há progresso sem risco, estamos falando de estagnação x evolução. Estamos “estagnados” em um país que demonstra um apetite enorme por conteúdos digitais (imagens, textos, vídeos) e o rádio digital pode oferecer isso democraticamente a toda nossa população.

EBC está pronta para investir nas ondas curtas digitais

No último dia 04 de maio, a Empresa Brasil de Comunicação - EBC, empresa de comunicação pública do Governo, protocolou ofício no Ministério das Comunicações em que defende a definição imediata do padrão de rádio digital para as frequências de ondas curtas e tropicais. A EBC é responsável pela Rádio Nacional da Amazônia, que opera nas faixas de 25m e 49m em ondas curtas. A emissora, que completa 39 anos em setembro e ainda opera com os mesmos transmissores utilizados no dia da sua inauguração. Nessas quatro décadas, a Rádio tornou-se um veículo de importância vital para muitas populações da Amazônia, pois, justamente por operar em ondas curtas, chega a lugares em que nenhum outro veículo de comunicação consegue atender. A necessária revitalização do parque de transmissões da emissora - ainda hoje um dos maiores sites de transmissão da América Latina - depende, no entanto, do futuro da frequência.

Em função da dificuldade, cada vez maior, de conseguir um sinal de boa qualidade para ouvir emissoras em ondas curtas, os ouvintes estão abandonado seus receptores ou não comprando novos. Para uma empresa pública, como a EBC, isso dificulta a possibilidade de continuar investindo na Nacional da Amazônia. "A EBC tem um plano de investimento pronto, para revitalizar o Parque de Transmissões de Ondas Curtas do Rodeador, que fica em Brazlândia, cidade aqui do DF. Já existe uma indústria brasileira com tecnologia para entregar novos transmissores de OC e que já nos enviou o orçamento de produção de dois novos equipamentos solid state, capazes de transmitir tanto em analógico como em digital. Mas sem uma definição pelo Governo da digitalização das ondas curtas fica muito difícil justificar o investimento.”, explica Pedro Varoni, Diretor Geral da EBC. Para Pedro, a definição do padrão digital vai alavancar a venda de receptores, pois os ouvintes ficarão novamente interessados nas ondas curtas, já que a qualidade do áudio será igual ao FM, mantendo a mesma área de cobertura atual, além do envio de dados multimídia.

O Rádio Digital, assim como a TV Digital, permite um salto evolutivo do meio, permitindo melhoria drástica da qualidade de áudio, multiprogramação, conteúdo multimídia e interatividade. Só nos resta a esperança do fim da morosidade governamental, onde temos visto sucessivos adiamentos de decisões sobre o Rádio Digital, e períodos de “engavetamento” do tema. E mais uma vez quem perde é o povo brasileiro.

*Simulcast é a transmissão simultânea do sinal analógico e digital pela emissora na mesma frequência.



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